 Meu filho estava vivo e forte quando Sor Jorah me
trouxe para esta tenda - disse. - Sentia-o dar pontapés e
lutar para nascer.
- Pode ser que sim, pode ser que não - respondeu Mirri
Maz Duur -, mas a criatura que saiu de seu ventre era
como eu disse. Havia morte naquela tenda, khaleesi.
- Só sombras - desvendou Sor Jorah, mas Dany
conseguia sentir a dúvida em sua voz. - Eu vi, maegi.
Vi-a, sozinha, dançando com as sombras.
- A sepultura produz longas sombras, Senhor de Ferro -
disse Mirri. - Longas e escuras, e no fim nenhuma luz
consegue resistir a elas.
Dany sabia que Sor Jorah matara seu filho. Fizera
aquilo por amor e lealdade, mas a transportara para um
lugar onde nenhum homem vivo devia ir e entregara seu
filho às trevas. Ele também o sabia; o rosto cinzento, os
olhos vazios, o coxear.
- As sombras também o tocaram, Sor Jorah - disse-lhe
Dany. O cavaleiro não deu resposta. Ela se virou para a
esposa de deus. - Preveniu-me de que só a morte podia
pagar pela vida. Pensei que se referisse ao cavalo.
- Não - disse Mirri Maz Duur. - Era nisso que queria
acreditar. Conhecia o preço. Conhecia? Conhecia? Se
olhar para trás, estou perdida.
- O preço foi pago - disse Dany. - O cavalo, meu filho,
Quaro e Qotho, Haggo e Cohollo. O preço foi pago, pago
e pago - ergueu-se das almofadas. - Onde está Khal
Drogo? Mostre-me, esposa de deus, maegi, maga de
sangue, o que quer que seja. Mostre-me Khal Drogo.
Mostre-me o que comprei com a vida de meu filho.
- Às suas ordens, khaleesi - disse a velha. - Venha, a
levarei até ele.
Dany estava mais fraca do que julgara. Sor Jorah pôs o
braço ao seu redor e a ajudou a ficar em pé.
- Há tempo suficiente para isto mais tarde, princesa -
disse ele em voz baixa.
- Quero vê-lo agora, Sor Jorah.
Depois da escuridão da tenda, o mundo lá fora era tão
brilhante que cegava. O sol queimava como ouro
derretido, e a terra estava seca e vazia. As aias
esperavam com frutas, vinho e água, e Jhogo
aproximou-se para ajudar Sor Jorah a suportar-lhe o
peso. Aggo e Rakharo seguiam atrás. O clarão do sol na
areia fez com que lhe fosse difícil ver mais, até Dany
erguer a mão para dar sombra aos olhos. Viu as cinzas de
uma fogueira, alguns cavalos que andavam às voltas,
apaticamente, em busca de um pouco de capim, tendas e
esteiras espalhadas. Uma pequena multidão de crianças
reunira-se para vê-la, e atrás delas vislumbrou mulheres
que tratavam de seus deveres e velhos mirrados que
olhavam o céu azul uniforme com olhos cansados,
enxotando fracamente moscas de sangue. Uma contagem
mostraria umas cem pessoas, não mais. Onde as outras
quarenta mil tinham montado acampamento, só o vento
e a poeira restavam agora.
- O khalasar de Drogo desapareceu - disse ela.
- Um khal que não pode montar não é um khal - disse
Jhogo.
- Os dothrakis seguem apenas os fortes - disse Sor Jorah.
- Lamento, minha princesa. Não havia maneira de detê-
los. Ko Pono foi o primeiro a partir, chamando-se a si
mesmo Khal Pono, e muitos o seguiram. Jhaqo não
esperou muito tempo para fazer o mesmo. O resto foi se
esgueirando noite após noite, em bandos grandes e
pequenos. Há uma dúzia de novos khalasares no mar
dothraki, no lugar que em tempos passados foi apenas de
Drogo.
- Os velhos ficaram - disse Aggo. - Os assustados, os
fracos e os doentes. E nós, que juramos. Nós ficamos.
- Levaram as manadas de Khal Drogo, khaleesi - disse
Rakharo. - Não éramos suficientes para impedir. É
direito dos fortes roubar dos fracos. Levaram também
muitos escravos, do khal e seus, mas deixaram alguns.
- Eroeh? - perguntou Dany, lembrando-se da criança
assustada que salvara fora da cidade dos Homens-
Ovelhas.
- Mago, que é agora companheiro de sangue de Khal
Jhaqo, capturou-a para si - disse Jhogo. - Montou-a por
cima e por baixo e a deu ao seu khal, e Jhaqo a deu aos
seus outros companheiros de sangue. Eram seis. Quando
ficaram satisfeitos, cortaram-lhe a garganta.
- Foi o destino dela, khaleesi - disse Aggo.
Se olhar para trás, estou perdida.
- Foi um destino cruel - disse Dany -, mas não tão cruel
como será o de Mago, Prometo, pelos velhos deuses e
pelos novos, pelo deus-ovelha e pelo deus-cavalo e por
todos os deuses que vivem. Juro pela Mãe das
Montanhas e o Ventre do Mundo. Antes de acabar com
eles, Mago e Ko Jhaqo suplicarão pela clemência que
mostraram a Eroeh,
Os dothrakis trocaram olhares inseguros.
- Khaleesi - explicou a aia Irri, como se estivesse falando
com uma criança. - Jhaqo é agora um khal, à frente de
vinte mil cavaleiros.
Dany ergueu a cabeça,
- E eu sou Daenerys, nascida na Tempestade, Daenerys
da Casa Targaryen, do sangue de Aegon, o Conquistador,
e Maegor, o Cruel, e da velha Valíria antes deles. Sou a
filha do dragão, e, juro-lhes, esses homens morrerão aos
gritos. Agora leve-me a Khal Drogo.
Jazia sobre a terra vermelha e nua, de olhos fixos no sol.
Uma dúzia de moscas de sangue pousara em seu corpo,
embora ele não parecesse senti-las, Dany enxotou-as e
ajoelhou-se a seu lado. Os olhos dele estavam muito
abertos, mas não viam, 